domingo, 16 de fevereiro de 2014

Prisioneira


Explorando um lado cronista meu, trago um texto que me veio hoje à cabeça.

Já se passaram dez minutos e muitas das palavras que eu queria desabafar já se perderam. A mente é tão limitada. Os sentimentos tão complexos e as palavras tão poucas. E tudo que eu tento te fazer entender sai errado da minha boca.
Já é madrugada, um clichê de filme batido e aqui estou, me remoendo, me sentindo em pedaços, me sentindo perdida. 

É muito fácil entender agora porque os maiores escritores morreram jovens e infelizes. Escrever exige muita dor, cada letra que alcança o papel é uma gota de sangue do autor, externando na escrita o que não soube demonstrar a pessoa amada. Eu tento botar pra fora, mas parece que tudo que eu tenho vontade de fazer seria idiota. A chuva finalmente caiu depois de tantos dias justamente quando eu também desabo sem forças pra argumentar e eu sinto que a única coisa que me aliviaria é sentar ali na rua e deixar ela cair em mim, lavar de mim todas as palavras que saíram errado, como em uns vinte filmes que já assisti.

Dói tanto. Dói querer sair disso, ir pra um lugar seguro onde eu não tenha que me esforçar tanto, mas eu sinto um gancho na minha pele, que limita a distância que eu posso ir, se eu for longe demais ele me rasga e apesar da dor ser grande agora, seria muito pior sangrar até morrer.
Então eu tento agir naturalmente, dou comido ao gato e tomo banho, me obrigo a sair do lugar quando na verdade eu poderia passar os próximos cinco anos parada olhando pra parede. Faço tudo pra evitar qualquer movimento que pareça saído de um filme dramático. Só que tudo que aparece nos filmes tá certo, é exatamente como sinto, estou perdida de mim, não sei pra onde ir, não sei o que fazer. Dentro de mim eu estou jogando os pratos no chão, rasgando as roupas, cortando a pele, gritando até a garganta arranhar, botando fogo nas fotos, enterrando as memórias. Mas olhando de fora eu estou só olhando pela janela. Contenho toda hora minhas mãos que tentam arranhar meu rosto, direcionar a dor pra outro lugar, não quero parecer louca apesar de já ter perdido a sanidade há tempos.

Não é engraçado - estou morrendo de rir - que tudo isso tenha sido só um mal entendido? E mesmo assim você não fez nada pra consertar. Um erro não conserta outro erro. Imagino quantas histórias lindas já foram destruídas por um mal entendido. Isso não justifica nada, eu só queria que você tivesse lutado por mim. E queria que agora que sei que você não vai lutar eu tivesse coragem de romper a pele e me libertar do gancho. Eu sinto que já estou quase lá, falta uma camada fina, mas eu sou covarde e sei que se você voltar antes que eu me liberte eu não vou conseguir terminar de rasgar a única coisa que me prende a você: eu.

Nós repetimos mil vezes a mesma conversa, andamos em círculos, eu tentando dizer que estou magoada, você tentando dizer que sente muito. Seguimos nesse looping esperando que o tempo volte atrás e nada tenha acontecido ainda, mas a pergunta que martela minha cabeça é se teria sido diferente se a gente tentasse de novo. Teria sido? Você teria me esperado? Teria ficado por mim?

Como não posso saber fico repetindo o quanto me sinto decepcionada e te decepciono a cada palavra que falo e isso nunca será resolvido de verdade. Mas quem sabe da próxima vez eu tenha coragem de arrancar o gancho de uma vez só e vai ver que ele nem estava tão fundo assim então eu não morreria tentando me livrar de me ater a você e se um dia eu voltasse, esse gancho nunca mais iria me prender nem a você nem a ninguém.

4 comentários:

  1. Poxa Mari. Teu post me deixou com um nó na garganta. Não sei se devo perguntar se você tá bem. Mas se não estiver, espero que fique.

    A gente se prende a muitas coisas mesmo, o tempo vai nos guiando a libertar... ou não.
    Um beijo,
    Re

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  2. Tô bem sim, Rê, principalmente depois de ter conseguido escrever esse texto. Fazia tempo que eu tentava escrever algo assim, mas quando chegava no computador as palavras se perdiam, hoje saiu finalmente. Pari... kkkkkkkk

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  3. Incrível esse texto. Triste, mas eu sinto mais profundidade do que tristeza. Muito bom esse texto MESMO!

    "Escrever exige muita dor, cada letra que alcança o papel é uma gota de sangue do autor, externando na escrita o que não soube demonstrar a pessoa amada."

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