terça-feira, 12 de agosto de 2014

Livro: Passarinha





Amiga que é amiga te indica livro bom e ainda empresta. Foi assim que eu conheci Passarinha, um livro muito delicado e simples sobre uma menina chamada Caitlin.

No mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta –, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo. Seguindo o conselho do irmão, ela decide trabalhar nisso, o que a leva a descobrir que nem tudo é realmente preto e branco, afinal, o mundo é cheio de cores, confuso mas belo. Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia, com um desfecho comovente e encantador que levará o leitor às lágrimas e dará aos jovens um precioso vislumbre do mundo todo especial dessa menina extraordinária.
Passarinha é um livro pra desarmar qualquer um, seja pelo delicadeza, seja pela honestidade. Pra começar é preciso entender o que é Síndrome de Asperger. Não, não é a mesma coisa que autismo, como Caitlin faz questão de deixar claro mais de uma vez no livro. Pessoas como a pequena Caitlin desenvolvem a fala e e a cognição e conseguem se sair muito bem na maioria das tarefas. Uma das coisas que Caitlin não consegue fazer muito bem é Captar o Sentido. E nesse ponto eu a entendo perfeitamente. Pra maioria das pessoas é fácil perceber o subentendido, captar o que se quis dizer quando o que foi dito era totalmente diferente e Caitlin vê as coisas bem preto e branco, ou é ou não é. Chega a ser desconcertante o modo como ela analisa uma expressão, uma palavra, uma regra. É daí que vem o estranhamento que sentimos diante de alguém com Asperger, não há rodeios, meio-termos, as coisas são o que são.


A autora, Kathryn Erskine, pelo que percebi quis mostrar como é estar na cabeça de alguém assim. O que muitas vezes entendemos como esquisitice nada mais é do que um modo diferente de ver o mundo. Com capítulos curtos, a cada página lemos sobre um evento que significou alguma mudança - aspecto importante pois quem tem Asperger geralmente não reage bem a elas - e vamos descobrindo detalhes aos poucos.

É muito emocionante ler os capítulos e ver o desenvolvimento de Caitlin, principalmente o emocional, como ela lida com a morte do irmão, Devon, sabendo que ele não vai voltar, mas sem conseguir processar essa perda. Como ela transmite essa necessidade de entender e aceitar para a construção de um armário que era um projeto do irmão. Sutilmente percebemos a mudança dela quanto ao acontecido e vemos também o sofrimento do pai e de outras pessoas que também perderam familiares na mesma tragédia e como elas tentam reerguer suas vidas.

Ao longo do livro há também um monte de simbolismos que valem a leitura em inglês, apesar da tradução muito bem feita. Isso é explicado na introdução e conforme fui lendo, fiquei muito emocionada com esse jogo de palavras usado de uma uma forma tão bonita.

Também tenho que falar da capa, que é muito delicada e bonita, dando o tom - literalmente - de como é a vida da Caitlin. A editora Valentina me surpreendeu com esse livro curtinho (dá pra ler em um dia), mas tão cheio de lições.

Livro: Passarinha
Autora: Kathryn Erskine
Editora: Valentina