domingo, 5 de março de 2017

Síndrome do impostor ou eu não sei fazer nada

Faz tempo que eu percebei que sou minha pior inimiga, faz tempo (tanto que nem me lembro quando começou) que eu luto contra uma voz na minha cabeça que me diz você não consegue, pra que ainda tenta se nada dá certo? Nem adianta começar isso, já sabe que não vai terminar mesmo, e se terminar, ninguém se importa, ninguém vai gostar. Essa voz é insistente, não dorme e não descansa, fica 24 horas por dia sussurrando no meu ouvido.

Por causa dessa voz eu nunca senti orgulho de nada que eu fiz: me formei em uma faculdade com bolsa integral enquanto trabalhava para pagar minhas coisas pessoais, comecei outra faculdade em seguida, fiz um combo estágio-trabalho-faculdade com poucas horas de sono por dia. Montei uma casa aos poucos junto com meu namorado, nos bancamos desde então, viajei mais de 200km dirigindo um carro mesmo morrendo de medo pela falta de experiência. Em vez de me sentir satisfeita, só me senti cansada e envergonhada pelo pouco que é. Essa voz me acorda todo dia e me faz questionar por que eu escrevo esse blog, por que eu fiz um canal no Youtube, por que eu quero essa segunda faculdade, por que eu quero escrever um livro? Você não consegue, não está fazendo direito, é melhor não fazer nada do que fazer essa porcaria aí, ela me diz. Tem dias que eu dou um peteleco por cima do ombro e ela me deixa em paz por algumas horas, mas tem dias que eu fico paralisada. Não sei o que estou fazendo, eu não conquistei nada, não posso conquistar porque não mereço, não fiz o suficiente. É isso. Eu fracassei. Sou uma fraude.

Quando eu converso com alguém sobre isso parece um sentimento geral, ninguém acha que sabe nada. Mas estamos fazendo. Eu só não sabia que isso tinha um nome: síndrome do impostor. Quando eu li sobre isso, tudo ficou claro, todos os anos que eu passei envergonhada das coisas legais que fiz, as oportunidades que perdi porque achei que não tinha chances, que tinha gente muito melhor por aí. As vezes que me sabotei, procrastinei, cheguei atrasada em entrevistas de emprego, deixei trabalhos para a última hora, perdi a oportunidade de me destacar em uma função, me apaguei, me escondi, mudei de emprego, mudei de amigos... tudo para esconder do mundo que eu não era boa. Ou que eu achava que não era boa. 

Nunca tentei vestibular pra universidade pública, eu não me achava inteligente o suficiente. Eu nem tentei estagiar em hotéis bons quando fazia Gastronomia, onde que eles iam me chamar quando tinha colegas tão melhores que eu dizendo que iam se candidatar? Quando eu consegui um estágio na época da Rio Restaurante Week desisti dele pra fazer outro em um restaurante em que eu nem entrava na cozinha. Faz dez anos que eu tento escrever um livro e sempre abandono porque quando leio acho tudo horrível, ninguém vai ler isso. Eu me sinto uma impostora. Por fora estou sorrindo, por dentro estou duvidando da minha capacidade.

Aham, você vai dizer que todo mundo duvida de si alguma vez na vida, se for esperto, duvida todo dia. Bom, na verdade, 70% da população deve sofrer dessa síndrome, então é quase todo mundo mesmo. Mas será que todo mundo fica paralisado pela dúvida? Se anula e deixa de viver? Deixa de tirar o passaporte porque não acredita que um dia vai realizar esse sonho bobo de viajar? Age depois de tomar uma decisão importante e desiste em seguida porque acha que não vai conseguir viver com as consequências? Como você lida com isso? A síndrome do impostor age de duas maneiras opostas: ou você trabalha muito para compensar essa suposta falta de talento que as pessoas podem perceber a qualquer momento, ou você simplesmente nem tenta mais, tal é o medo que você tem de as pessoas perceberem que você é tão ruim que nem tentando muito, consegue alguma coisa. Eu me encaixo no segundo grupo e ninguém me julga com mais rigor do que eu.

Saber que eu não sou a única a me sentir assim me ajuda e saber que não é tanto incompetência, talvez não seja incompetência de forma nenhuma, é mais uma distorção de imagem, também ajuda. Mas não resolve. Todo dia eu tenho que me lembrar das coisas que eu sei fazer, lembrar que eu posso fazer e se não souber posso aprender. Todo dia eu tenho que olhar na minha agenda a lista de metas que eu tracei para mim pra encontrar um pouco de inspiração e não jogar tudo fora. Quando é sua mente que está contra você não tem como fugir. É a voz. Ela é insistente, estridente e você luta pra calar essa voz, só que essa voz é você. E aí você olha no espelho e se pergunta como é que pode uma parte do seu corpo não estar sob controle e isso é assustador, mas você continua.

Como eu escrevi no post anterior, ter uma rotina, ver os pequenos resultados, anotar o que você conseguiu realizar até aqui é o que me ajuda a sentir orgulho. Minha esperança é que as pequenas coisas se tornem grandes coisas. Escrevi isso porque talvez você também esteja se sentindo derrotado e incapaz e talvez você também não saiba e precise de alguém pra te dizer: você pode sim, você é capaz, você consegue, você é bom e merece ser feliz, merece ser elogiado e merece conquistar o que quiser.